'Somos Tão Jovens' retrata um Renato Russo imperfeito e longe do mito
Maio será o mês de Renato Russo nos cinemas. Nesta sexta-feira (3) estreia Somos Tão Jovens,
cinebiografia que flagra os anos de formação do líder da Legião Urbana,
da adolescência até o início da vida adulta em Brasília. Já o último
fim de semana do mês tem previsto o lançamento de Faroeste Caboclo, adaptação da quilométrica história de João de Santo Cristo.
Somos Tão Jovens é um lançamento ambicioso, o principal do fim de semana, com 550 salas. Faroeste Caboclo
tem gerado muita expectativa entre os fãs, e não é apenas pela presença
de Isis Valverde no elenco, como Maria Lúcia. Para o bem ou para o mal,
mesmo há quase 17 anos de sua morte, Renato Russo continua a ser o
maior ídolo do rock nacional - e o Legião uma das bandas que mais vende
no País.
Se Somos Tão Jovens fizer o sucesso que se espera dele boa
parte pode ser colocada na conta de Thiago Mendonça. O ator conseguir
mimetizar os trejeitos de Renato Russo com delicadeza, sem exagerar nos
gestos ou na fala. Ouvir Mendonça na tela é como assistir a entrevistas
antigas de Renato, inclusive com a prepotência e segurança na voz de
quem planejou desde muito cedo todos os passos que queria dar na vida.
Apesar de claramente ser uma homenagem, o filme não cai
na simplicidade de retratar um Renato Russo acima do bem e do mal. Estão
na tela o egoísmo de quem não tinha vergonha de usar os amigos para seu
próprio interesse, o alcoolismo juvenil que o levava a pagar mico
embaixo de janelas dos blocos de Brasília, a rebeldia de menino mimado,
os ataques de estrelismo. Um retrato generoso de uma época bem distante
do momento em que o mito suplantou o personagem que Renato criou para
si.
No entanto, o filme é irregular e demora a engrenar,
principalmente por tentar abranger, aos poucos, cada um dos elementos
que criaram a persona Renato Russo. Partindo da epifisiólise, a doença
rara que o deixou prostrado na cama por meses na adolescência - período
em que devorou livros e discos como pastilhas de tic-tac -, e passando
pela descoberta do punk nos semanários ingleses que lia na escola onde
lecionava inglês, o longa vai juntando cada fato esparso como um
quebra-cabeça que nunca se completa.
A criação do Aborto Elétrico, ponto fundamental da origem do rock de
brasília, é abordada meticulosamente, mas esbarra nas atuações forçadas
de Bruno Torres, como Fê Lemos, e Sergio Dalcin, como André Pretorius -
no filme chamado de Petrus. A paixão platônica do vocalista por Flávio
Lemos e a crescente tensão entre ele e o baterista, no entanto, ficam
nítidas na tela. Apesar de continuarem amigos, o rancor de Renato pelo
fim da banda nunca se dissipou totalmente - quando a gravadora do
Capital Inicial sugeriu que o grupo pedisse uma música a Renato para o
terceiro disco, o compositor negou a canção na cara de Fê Lemos.
Um dos motivos do legado do Legião Urbana ter crescido com os anos
provavelmente reside no fato de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá não
terem abusado do espólio da banda. As constantes brigas com a família de
Renato parecem ter diminuído - tanto a irmã do cantor como o filho do
guitarrista fazem participações especiais no filme, por exemplo. Assim,
mesmo que tardiamente, um dos grandes ídolos da música brasileira ganha
as telas. Não deve converter novos legionários, mas nem precisa: as
canções estão aí para isso.
Fonte: UOL

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