Polícia Militar levou quase três horas para chegar à prefeitura e conter a ação de uma minoria de vândalos, que depredaram prédios, saquearam lojas e deixaram rastro de destruição no centro de São Paulo
Uma van da TV Record foi depredada e incendiada por manifestantes Foto: Fernando Borges / Terra
Bombas de gás, spray de pimenta e cassetetes dos
policiais militares sumiram das ruas de São Paulo depois daquela
quinta-feira, quando manifestantes e jornalistas foram reprimidos com
violência em um protesto que seguia pacífico contra o aumento da
passagem de ônibus. Cinco dias depois, um novo ato terminou, nesta
terça-feira, marcado pela ação de uma minoria de vândalos que tentou
invadir o prédio da prefeitura, queimou o veículo de transmissão de uma
emissora de TV e causou revolta em quem queria protestar em paz.
O
protesto começou por volta das 17h, na Praça da Sé, quando uma multidão
seguiu de forma pacífica pelas ruas da região central. A situação ficou
fora de controle quando um grupo de vândalos, que seguia na frente, passou a depredar o prédio da prefeitura. Percebendo a violência, manifestantes ligados ao Movimento Passe Livre (MPL) começaram a abandonar a mobilização e seguir para a avenida Paulista.
Onde estava a polícia, parece que é oito ou 80. Ou desce o cacete, ou fica ausente e deixa quebrarem tudo
Daniel Vilhena
administrador de empresas
Durante quase três horas, o que se viu na região central
da capital foi uma sucessão de depredações, saques em lojas,
quebra-quebra. Os 50 mil homens e mulheres que caminhavam bradando
palavras de ordem, deram lugar a uma minoria de cerca de 500 vândalos
que se sentiram livres para destruir o que viam pela frente.
Eles começaram pelo prédio da prefeitura, onde uma
equipe da Guarda Municipal e alguns policiais da força tática faziam a
segurança. Um grupo que não queria que o movimento fosse manchado pela
violência, tentou impedir a ação. "Sem violência, sem vandalismo",
gritavam os manifestantes, que faziam uma espécie de escudo humano para
evitar que a prefeitura fosse invadida. Praticamente todos os vidros do
primeiro andar foram quebrados. O prédio ainda foi pichado com a frase
"R$ 3,20 não", em alusão à tarifa do transporte público em São Paulo.
Os vândalos não conseguiram ocupar o prédio, mas botaram
fogo na base da PM que fica junto à prefeitura, incendiaram o carro de
transmissão da TV Record e agências do Itaú, além de invadir e saquear
diversas lojas da região. Dois guardas da prefeitura ficaram feridos, um
deles levou nove pontos na cabeça. Em todo esse tempo, não se viu um
policial sequer intervindo para impedir a ação dos criminosos. O Theatro
Municipal também sofreu uma tentativa de invasão, as paredes e os
vitrais foram pichados e, segundo a direção do local, as cerca de 300
pessoas que assistiam a uma ópera ficaram assustadas ao deixar o teatro e
ver o rastro de destruição.
Administrador de empresas, Daniel Vilhena, 35 anos, disse ao Terra
que ficou preso no escritório onde trabalha, em frente à prefeitura,
até as 21h30, quando se arriscou sair em meio à confusão. "Participei da
manifestação ontem, foi super pacífico, mas hoje eu vi de camarote uma
ação de depredação, de vandalismo mesmo", lamentou. Ele ainda criticou a
ausência da PM. "Onde estava a polícia? Parece que é oito ou 80, ou
desce o cacete, ou fica ausente e deixa quebrarem tudo".
Moradora do prédio do antigo hotel Othon, Marcela
Bezerra do Nascimento, 25 anos, precisou sair às pressas de casa
carregando o que conseguia nas mãos. No térreo da construção existe uma
agência do Itaú que ficou completamente destruída após incêndio
provocado pelos vândalos. "Estamos desesperados, agarrei meus filhos,
peguei o documento, as roupas do bebê e fugi. Ninguém da polícia foi nos
ajudar", disse ela, que ficou com medo da fumaça que atingia o prédio
de 25 andares, ocupado por moradores sem-teto.
A Força Tática chegou para tentar conter os manifestantes somente depois
de três horas de depredação. O Batalhão de Choque precisou ser acionado
às pressas. Eram 22h quando bombas de efeito moral começaram a ser
disparadas na Praça do Patriarca. Saqueadores, que corriam com
computadores nas mãos, foram detidos. "Parece que eu andei 14
quilômetros ontem por nada. Hoje perderam o controle", disse um homem
que se identificou apenas como Osmar. Ele fez referência à marcha
pacífica do dia anterior, quando 65 mil pessoas caminharam pelas ruas da
cidade.
Na Paulista, manifestantes fazem Carnaval
Enquanto se sucediam cenas de guerra em frente à prefeitura, na avenida Paulista o que se via era uma manifestação pacífica e bem organizada contra o aumento da passagem. O grupo, que também saiu da Praça da Sé, mas seguiu por outra rota, se concentrou no vão livre do Museu de Arte (Masp).
Enquanto se sucediam cenas de guerra em frente à prefeitura, na avenida Paulista o que se via era uma manifestação pacífica e bem organizada contra o aumento da passagem. O grupo, que também saiu da Praça da Sé, mas seguiu por outra rota, se concentrou no vão livre do Museu de Arte (Masp).
Cantando e dançando, a multidão fazia um "Carnaval" na
região. "Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor", gritam
os manifestantes reunidos na avenida, que chegou a ficar bloqueada nos
dois sentidos durante a noite.
Secretaria diz que polícia não agiu para não prejudicar movimento
Após as cenas de guerra, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse que não interviu na tentativa de invasão ao prédio da prefeitura para não prejudicar a manifestação pacífica. "A pedido da prefeitura, a PM havia posicionado uma equipe da Força Tática no interior do prédio, mas avaliou que intervir em meio à multidão poderia prejudicar parte da maioria pacífica de manifestantes", diz a nota enviada à imprensa na noite desta terça-feira.
Após as cenas de guerra, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse que não interviu na tentativa de invasão ao prédio da prefeitura para não prejudicar a manifestação pacífica. "A pedido da prefeitura, a PM havia posicionado uma equipe da Força Tática no interior do prédio, mas avaliou que intervir em meio à multidão poderia prejudicar parte da maioria pacífica de manifestantes", diz a nota enviada à imprensa na noite desta terça-feira.
Cenas de guerra nos protestos em SP
A cidade de São Paulo enfrenta protestos contra o aumento na tarifa do transporte público desde o dia 6 de junho. Manifestantes e policiais entraram em confronto em diferentes ocasiões e ruas do centro se transformaram em cenários de guerra. Enquanto policiais usavam bombas e tiros de bala de borracha, manifestantes respondiam com pedras e rojões.
A cidade de São Paulo enfrenta protestos contra o aumento na tarifa do transporte público desde o dia 6 de junho. Manifestantes e policiais entraram em confronto em diferentes ocasiões e ruas do centro se transformaram em cenários de guerra. Enquanto policiais usavam bombas e tiros de bala de borracha, manifestantes respondiam com pedras e rojões.
Durante os atos, portas de agências bancárias e
estabelecimentos comerciais foram quebrados, ônibus, muros e monumentos
pichados e lixeiras incendiadas. Os manifestantes alegam que reagem à
repressão opressiva da polícia, que age de maneira truculenta para
tentar conter ou dispersar os protestos.
Segundo a administração pública, em quatro dias de
manifestações mais de 250 pessoas foram presas, muitas sob acusação de
depredação de patrimônio público e formação de quadrilha. No dia 13 de junho,
bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela Polícia Militar na rua da
Consolação deram início a uma sequência de atos violentos por parte das
forças de segurança, que se espalharam pelo centro.
O cenário foi de caos: manifestantes e pessoas pegas de
surpresa pelo protesto correndo para todos os lados tentando se
proteger; motoristas e passageiros de ônibus inalando gás de pimenta sem
ter como fugir em meio ao trânsito; e vários jornalistas, que cobriam o
protesto, detidos, ameaçados ou agredidos.
No dia seguinte ao protesto marcado pela violência, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) declarou que via "ações coordenadas" oportunistas no movimento,
reiterou "a defesa do direito de ir e vir" da população, mas garantiu
que não permitirá que os manifestantes prejudiquem a circulação de
veículos e pessoas. No mesmo dia, o prefeito de São Paulo, Fernando
Haddad (PT), afirmou que a polícia deve ser investigada por abusos
cometidos, mas não deixou de criticar a ação dos ativistas.
As agressões da polícia repercutiram negativamente na
imprensa e também nas redes sociais. Vítimas e testemunhas da ação
violenta divulgaram relatos, fotografias e vídeos na
internet. A mobilização ultrapassou as fronteiras do País e ganhou as
ruas de várias cidades do mundo. Dezenas de manifestações foram
organizadas em outros países em apoio aos protestos em São Paulo e
repúdio à ação violenta da Polícia Militar. Eventos foram marcados pelas
redes sociais em quase 30 cidades da Europa, Estados Unidos e América
Latina.
As passagens de ônibus, metrô e trem da cidade de São Paulo passaram a custar R$ 3,20 no dia 2 de junho.
A tarifa anterior, de R$ 3, vigorava desde janeiro de 2011. Segundo a
administração paulista, caso fosse feito o reajuste com base na inflação
acumulada no período, aferido pelo IPC/Fipe, o valor chegaria a R$
3,40. "O reajuste abaixo da inflação é um esforço da prefeitura para não
onerar em excesso os passageiros", disse em nota.
O prefeito da capital havia declarado que o reajuste
poderia ser menor caso o Congresso aprovasse a desoneração do Programa
de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da
Seguridade Social (Cofins) para o transporte público. A proposta foi aprovada, mas não houve manifestação da administração municipal sobre redução das tarifas.
Fonte: Terra
Fonte: Terra
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